Resumo Por que determinadas pessoas desenvolvem dependência química enquanto a maioria que experimenta as mesmas substâncias não o faz? Esta questão, aparentemente direta, é o fio condutor de um estudo que recusa respostas universais e formulações genéricas. Este trabalho, fundamentado nos aportes da psicanálise freudiana e lacaniana, examina a dependência química como expressão sintomática de uma subjetividade em sofrimento e como fenômeno profundamente enraizado na cultura contemporânea. Articula a dimensão psíquica do vício com o contexto social marcado pela exigência cultural do gozo irrestrito, pela crescente medicalização da vida, pela fragilização dos vínculos afetivos e pela escassez de experiências de passagem que ofereçam aos jovens alternativas de inserção no mundo adulto. A partir de conceitos como a substância ao mesmo tempo curativa e destrutiva, a passagem do prazer à necessidade compulsiva, a dissolução da identidade no vício e a função estrutural da falta, o estudo propõe uma leitura clínica e ética da dependência — sem ser um manifesto contra as drogas, mas reconhecendo no vício uma resposta, sempre irrepetível em cada caso, a um sofrimento que precisa ser escutado.
Palavras-chave: psicanálise e dependência química; subjetividade e vício; porque pessoas desenvolvem dependência; uso de drogas em jovens; gozo e dependência; cultura e drogas; substância terapêutica e destrutiva; desejo e compulsão; clínica psicanalítica da dependência; cultura do excesso; regulamentação das drogas.
1 Introdução: Um Estudo que Não é um Manifesto contra as Drogas Há uma tendência persistente, quando se aborda o tema das drogas em espaços acadêmicos ou clínicos, de enquadrá-lo em posições binárias: a defesa moralizante da abstinência total ou a permissividade irresponsável diante do uso irrestrito. A psicanálise, desde suas origens, recusa esse binarismo. Ela propõe uma terceira via — a da escuta, do questionamento e da compreensão do sujeito em sua história particular e intransferível. A droga, nessa perspectiva, não é apenas um problema de saúde pública, de criminalidade ou de falha moral. Ela é, antes de tudo, um sintoma — expressão de uma subjetividade em sofrimento, denúncia de uma cultura que promete o gozo sem limites e entrega a exclusão, efeito de uma época que medicalizou a existência e estigmatizou o desejo de alteração da consciência. Compreender a dependência química a partir desse ângulo não significa tolerá-la irrestritamente: significa tratá-la com a seriedade clínica e a densidade teórica que ela exige. A questão central que organiza este estudo é, ao mesmo tempo, simples na forma e vertiginosa no conteúdo: por que alguns desenvolvem dependência e a maioria não? Diante de uma substância igualmente disponível e igualmente sedutora, por que certos sujeitos se tornam dependentes enquanto outros mantêm uma relação de prazer eventual e controlado? A resposta, como veremos, não está na substância — está no sujeito, em sua estrutura psíquica, em sua história relacional e no contexto cultural que o constitui. 2. A Dependência como Sintoma: Expressão de um Sofrimento Próprio de Cada Sujeito Um dos equívocos mais persistentes no tratamento da dependência química é a suposição de que existe um perfil único do dependente — uma categoria clínica homogênea passível de protocolos uniformes. A psicanálise contesta radicalmente essa suposição. Cada pessoa que desenvolve dependência o faz por razões e por percursos que lhe são próprios, intransponíveis para outro caso. Isso não significa que não existem padrões ou tendências comuns — existem, e serão examinados ao longo deste estudo. Significa que tais padrões não esgotam a compreensão do caso concreto, e que qualquer intervenção clínica eficaz precisará ir além da classificação diagnóstica para alcançar a história particular daquele sujeito. A
dependência química não é uma doença em si mesma: ela é sintoma — e sintoma que pode estar respondendo a problemáticas radicalmente distintas de pessoa para pessoa. Freud, em textos fundadores como O Mal-Estar na Civilização (1930), já havia apontado para o fato de que é impossível enfrentar a realidade em sua inteireza, sem nenhum recurso de alívio. A embriaguez, a fantasia, o jogo, o amor — todos cumprem, em diferentes graus e modalidades, a função de aliviar o peso de uma realidade que insiste em ser insuportável. Isso não é patologia: é condição humana. A questão clínica não é se o sujeito usa algum mecanismo de alívio — todos usamos —, mas quando e por que esse recurso deixa de ser ocasional e se torna compulsivo, incontornável, central à existência. A chave freudiana para compreender esse ponto de virada é precisa: a cura do vício pelo simples mandato de abstinência não funciona porque não vai à raiz da atração. Exigir que o dependente simplesmente pare é tratar o sintoma como se fosse a doença — é suprimir a resposta sem jamais se perguntar a que pergunta ela responde. O trabalho analítico, ao contrário, dirige-se à fonte: à dor, à angústia, ao vazio que a substância veio preencher. 3. A Substância que Cura e Destrói: Um Mesmo Composto, Dois Destinos A tradição filosófica grega legou à clínica contemporânea um conceito de notável pertinência para pensar a relação entre substância psicoativa e sujeito: o conceito de phármakon, presente nos diálogos de Platão, que designa aquilo que é simultaneamente curativo e letal — cuja natureza não muda, mas cujo efeito se transforma radicalmente conforme a dose e o contexto. O arsênico, usado em doses mínimas em certas tradições medicinais, torna-se fatal em doses maiores. A mesma lógica se aplica, com precisão inquietante, às substâncias psicoativas. Para o sujeito que inicia o uso, a droga funciona inicialmente como um agente terapêutico no sentido subjetivo: alívio para a angústia, para a inibição social, para a dificuldade de sentir prazer, para a dor de existir. Cada pessoa encontra nela uma resposta específica a uma necessidade específica — e essa é precisamente a razão pela qual não existe um único caminho para o vício. O que age como alívio para um — o álcool que dissolve a contenção social; a maconha que torna suportável a monotonia; a cocaína que alimenta a sensação de capacidade irrestrita — não é o mesmo para todos.
O problema não está, portanto, na substância em si: está na dinâmica pela qual o agente de alívio eventual torna-se o único recurso disponível. Está no momento em que o sujeito deixa de dispor da droga e a droga passa a dispor do sujeito. Quando isso ocorre, a substância cruzou seu limiar e tornou-se destrutiva — não necessariamente no sentido orgânico imediato, mas no sentido existencial: aquilo que deveria ser um recurso transformou-se em uma prisão sem grades visíveis. Essa passagem — do prazer à necessidade — é o núcleo clínico da dependência química. Ela não é abrupta: é gradual, insidiosa, frequentemente invisível para o próprio sujeito até que já não existe mais saída aparente. Compreendê-la é o primeiro passo para intervir clinicamente de forma que respeite a complexidade do processo e a dignidade do sujeito que o atravessa. 4. Do Prazer à Compulsão: Quando o Objeto de Desejo Torna-se Exigência Absoluta A psicanálise lacaniana oferece uma distinção conceitual de grande poder clínico para compreender a dinâmica da dependência: a diferença entre objeto de desejo e objeto de exigência absoluta. Para a psicanálise, o desejo humano é constitutivamente insatisfeito — não porque seus objetos sejam insuficientes, mas porque o desejo não visa à satisfação, e sim à perpetuação do próprio movimento desejante. É o desejo contínuo que move a vida criativa, o trabalho, os vínculos afetivos, a produção cultural. O objeto de desejo, nesse registro, é sempre simbólico, sempre parcial, sempre substituível: quando não está disponível, pode ser trocado por outro, adiado, transformado. A flexibilidade é a marca do objeto de desejo — ele pode ser uma cerveja numa tarde de sábado, e se não houver cerveja, haverá vinho, ou água, ou uma conversa que o substitua sem drama. O objeto de exigência absoluta é radicalmente diferente. Ele não admite substituição, adiamento ou transformação: é o único capaz de produzir satisfação, e sua ausência não é mera frustração — é uma experiência de catástrofe subjetiva. O dependente em abstinência não está simplesmente insatisfeito: está em colapso. A falta da substância não é vivida como ausência de um prazer, mas como impossibilidade de existir. Essa é a dimensão mais brutal da dependência: o sujeito não usa mais a droga porque quer — ele usa porque sem ela não consegue estar no mundo. Essa transformação — do prazer à exigência compulsiva — tem consequências que transcendem o indivíduo e alcançam o social. É ela que explica a relação entre
dependência e violência: quando a ausência da substância se torna insuportável e seu acesso se torna urgente, o sujeito pode fazer coisas que jamais faria em outros contextos — roubar, prostituir-se, violentar. Não por maldade, mas por estar dominado por uma urgência que suprime qualquer outra consideração. Ninguém mata por um objeto de prazer: mata-se por aquilo do qual se tornou escravo. Essa distinção tem implicações diretas para as políticas públicas sobre drogas e para o trabalho clínico com dependentes. 5. A Dissolução da Identidade no Vício: Quando a Substância Passa a Definir o Sujeito Um dos fenômenos mais significativos — e mais desafiadores clinicamente — da dependência grave é aquilo que a clínica psicanalítica reconhece como dissolução da identidade subjetiva no vício. Trata-se da condição em que a droga deixa de ser um objeto que o sujeito usa e torna-se aquilo que define quem o sujeito é. Quando um dependente se apresenta dizendo "eu sou um viciado", não está apenas descrevendo um comportamento: está cedendo sua identidade inteira à substância. Essa operação tem uma lógica psíquica precisa: ao se identificar integralmente com a categoria do vício, o sujeito se libera da tarefa de se responsabilizar por sua própria história. Não precisa mais se perguntar quem é, o que quer, o que sofreu, o que deseja — porque a droga responde por tudo. É uma posição que a clínica reconhece como regressiva: há algo fora de mim que me explica e me define, e eu não preciso me entender. A substância fez de mim o que sou. Para o analista que recebe esse sujeito, o desafio é precisamente o de desfazer essa fusão identitária sem atacá-la frontalmente — o que geralmente produz resistência e afastamento. O trabalho consiste em criar condições para que o sujeito possa se perguntar quem é para além do vício; para que perceba que sua fala, sua palavra, suas indagações — e não a substância — são o que pode produzir algo no processo terapêutico. É um percurso longo, mas é o único que funciona duradouramente. Winnicott (1965), em sua teoria do desenvolvimento emocional, descreveu o comportamento antissocial como uma tentativa do sujeito de recuperar algo que lhe foi subtraído — uma esperança disfarçada de transgressão. Essa leitura ilumina a dependência por um ângulo complementar: o dependente que se dissolve na droga pode estar, ao mesmo tempo, buscando desesperadamente algo que nunca encontrou
— amparo, completude, ausência de dor. A substância oferece uma solução real, ainda que temporária e destrutiva, para um problema também real. 6. Grandiosidade Ilusória e Atração pelo Limite: A Dimensão do Risco no Vício Há uma dimensão da dependência química — especialmente marcante nos estágios iniciais e entre os mais jovens — que frequentemente escapa às análises comportamentais e farmacológicas: a relação entre o uso de drogas e a fantasia de grandiosidade ilusória. Muitos usuários mantêm com a substância uma relação de desafio: a convicção de que podem ir até o limite sem serem destruídos, que são a exceção à regra, que o vício acontece com os outros mas não com eles. Em termos psicanalíticos, essa fantasia de grandiosidade corresponde a um estado em que o sujeito se percebe como isento de castração — sem falta, sem limite, sem finitude. Paradoxalmente, essa sensação de invulnerabilidade gera, como contrapartida necessária, uma atração crescente pelo risco extremo: se sou inquebrantável, posso testar essa condição indo cada vez mais longe. A droga, nesse contexto, é o instrumento de uma provação que o sujeito realiza consigo mesmo — uma provação que, pela lógica da dependência, tende a ser vencida pela substância. Esse mecanismo é de grande relevância clínica, especialmente no trabalho com jovens e jovens adultos. A fantasia de que "comigo não vai acontecer" não é ilusão ingênua: é uma defesa contra a angústia de reconhecer a própria vulnerabilidade e finitude. Abordar esse mecanismo clinicamente exige sensibilidade e precisão: não se trata de destruir a defesa, mas de criar condições para que o sujeito possa reconhecer seus limites sem se sentir aniquilado por esse reconhecimento. Lacan (1966), em sua teorização sobre o gozo, ilumina esse ponto de forma precisa: o gozo que não passa pela lei — pelo limite, pela castração simbólica — tende ao excesso e à autodestruição. O sujeito que busca um prazer sem borda, uma satisfação sem falta, está perseguindo algo que, estruturalmente, não existe — e a droga é o objeto que promete essa impossibilidade, seduzindo pela oferta que nunca pode cumprir integralmente. 7. A Cultura do Excesso: A Exigência de Felicidade e a Vulnerabilidade ao Vício A dependência química não pode ser plenamente compreendida fora de seu contexto cultural. Vivemos em uma época marcada por aquilo que os psicanalistas denominam
cultura do gozo ou do excesso: a exigência difusa, transmitida pela publicidade, pela mídia e por certas correntes da psicologia comportamental, de que se deve ser feliz, estar bem e sentir prazer — e de que qualquer desvio dessa norma é uma falha pessoal que deve ser rapidamente corrigida. É a cultura do "você merece" e do "viva sem limites" — que, ao mesmo tempo que convoca ao prazer irrestrito, criminaliza as substâncias que mais diretamente produzem esses estados alterados. Essa contradição é constitutiva da nossa época: uma cultura que anuncia o gozo em todos os canais — sem nomear as drogas, mas usando suas imagens de euforia, de farra, de intensidade — e que simultaneamente proíbe e estigmatiza as substâncias capazes de produzir tais experiências. O resultado não poderia ser outro: a proibição potencializa o valor de gozo do objeto vedado. Como já observara Freud, onde há interdição, há desejo — porque só se proíbe aquilo que é suficientemente atraente para precisar de vedação. Há ainda uma dimensão da cultura contemporânea que favorece a vulnerabilidade ao vício: a crença de que é possível e desejável viver sem dor. A crescente medicalização da existência — a prescrição de psicofármacos para condições que fazem parte da vida normal, como o luto, a inibição, a tristeza passageira — transmite implicitamente a mensagem de que qualquer sofrimento é patológico e que existe uma substância para cada estado afetivo indesejado. Isso não é clinicamente inócuo: ao normalizar o recurso químico para gerenciar estados internos, a medicina convencional pode inadvertidamente abrir caminho para o uso de substâncias ilícitas com a mesma finalidade. A transição de uma para outra não é inevitável — mas a lógica que as sustenta é a mesma. Conrad (2007) documentou extensamente esse processo de medicalização da experiência ordinária, mostrando como estados existenciais normais foram transformados em diagnósticos tratáveis. O luto patologizado, a timidez convertida em transtorno, o cansaço reinterpretado como síndrome — todas essas operações produzem um sujeito que aprende, desde cedo, que seus estados internos devem ser gerenciados quimicamente, e não elaborados simbolicamente. 8. Os Jovens, o Pertencimento e a Função do Vício na Construção Identitária Os jovens são, talvez, as principais vítimas da cultura do excesso contemporânea. A publicidade os elege como figura privilegiada do prazer: são eles que devem gozar,
consumir, existir intensamente — antes das responsabilidades da vida adulta, mas já com autonomia suficiente para constituir um mercado de consumo. Ao mesmo tempo, a juventude real — que qualquer pessoa que a viveu sabe ser uma época de insegurança, medo de rejeição, inadequação corporal e desorientação identitária — não tem nada a ver com essa imagem de gozo total que lhe é devolvida pela mídia e pela publicidade. Essa discrepância entre a imagem cultural do jovem feliz e a experiência real da juventude cria uma demanda de resolução que muitos encontram na droga. A maconha, em particular, tornou-se em muitos contextos um verdadeiro rito de pertencimento grupal: quem fuma com os outros é aceito, ri junto, relaxa a hipervigilância social. Para um jovem que se sente inadequado ou excluído, essa função de inserção que a substância cumpre não é desprezível — é, muitas vezes, o único acesso disponível ao grupo e ao reconhecimento que ele oferece. A questão clínica e social, portanto, não é simplesmente proibir ou tolerar: é oferecer alternativas de inserção no mundo. Em décadas passadas, a militância política, o trabalho comunitário, a arte e o engajamento coletivo cumpriam essa função — ofereciam ao jovem uma forma de entrar no mundo que não fosse apenas o consumo ou a droga. O empobrecimento dessas alternativas, combinado com a hegemonia de uma cultura individualista e consumista, deixou as novas gerações com caminhos cada vez mais estreitos de constituição identitária e de pertencimento social. Os pais têm um papel ambivalente nesse processo. Ao internalizarem a lógica da cultura hedonista — acreditando que fracassam como pais se não puderem dar tudo o que o filho deseja —, frequentemente projetam nos filhos suas próprias fantasias de satisfação plena não realizadas. O jovem, assim, não é apenas alvo de uma cultura que o convoca ao prazer irrestrito: é também depositário das fantasias parentais não cumpridas. Essa dupla pressão — cultural e familiar — cria condições de vulnerabilidade que a clínica reconhece com frequência nos casos de dependência precoce. 9. A Regulamentação das Drogas: Uma Perspectiva Psicanalítica e de Saúde Pública A psicanálise não é uma disciplina de política pública, e seria um equívoco esperar dela respostas definitivas sobre a regulamentação das drogas. No entanto, ela oferece aportes relevantes para pensar a questão. O primeiro deles, já mencionado, é a relação entre interdição e desejo: a proibição potencializa o valor de gozo do objeto vedado.
Uma substância que passa a circular dentro de marcos legais perde parte de seu poder transgressor — o que, do ponto de vista da atração sobre os mais jovens, é um dado de relevância clínica. O segundo aporte é de natureza clínica e ética: a regulamentação tornaria possível que o usuário falasse abertamente sobre seu consumo, que pudesse buscar ajuda sem o estigma criminal, que pudesse ser tratado como sujeito de suas escolhas e não como infrator. A clandestinidade obriga o vício ao silêncio — e o silêncio é o ambiente mais propício à progressão da dependência. Uma experiência que pode ser verbalizada, discutida e avaliada em grupo tem muito mais chances de ser integrada e eventualmente superada do que uma que precisa ser escondida e vivida no isolamento. O terceiro aporte é epidemiológico, mas com dimensão ética incontornável: morre-se muito mais em consequência do tráfico ilegal do que de overdose direta. As vítimas não são apenas os envolvidos no comércio ilegal — são crianças, transeuntes, comunidades inteiras cujos territórios são disputados por organizações criminosas que existem precisamente porque a proibição cria um mercado extremamente lucrativo e completamente sem regulação. A redução do sofrimento social causado pelo tráfico é, ela mesma, um imperativo de saúde pública que qualquer posição responsável sobre o tema precisa considerar. Isso não significa que a regulamentação resolva o problema da dependência química: ela não resolve. Significa que pode criar condições mais favoráveis para que o problema seja tratado como questão de saúde — e não de segurança pública —, e para que os sujeitos afetados possam ser abordados com os instrumentos do cuidado, e não da punição. 10. Implicações Clínicas: Como a Psicanálise Aborda o Sujeito Dependente O que distingue a abordagem psicanalítica da dependência química de outros modelos clínicos é, fundamentalmente, a posição diante do sujeito. O analista não recebe um dependente químico como tipo clínico: recebe um sujeito. Essa distinção não é retórica — é clínica e ética. Trabalhar com um tipo clínico significa operar dentro de categorias, protocolos e expectativas padronizadas. Trabalhar com um sujeito significa se dispor a escutar uma história singular, irrepetível, que a droga não apagou completamente — embora possa ter tentado. A primeira tarefa do trabalho analítico com o dependente é, frequentemente, a desconstrução da fusão entre a pessoa e o vício: fazer com que o sujeito deixe de se
apresentar como "sou um viciado" e passe a se perguntar quem é para além da substância, o que sofreu, o que deseja. Essa não é uma tarefa simples: a identificação ao vício frequentemente cumpre a função protetora de evitar o confronto com uma subjetividade dolorosa. Remover essa identificação sem criar as condições para que algo tome seu lugar pode ser, em si mesmo, traumatizante. O trabalho clínico com dependentes é também, frequentemente, um trabalho com o grupo e com a família. As instituições que obtêm melhores resultados no tratamento da dependência grave são, em geral, aquelas que combinam o trabalho individual com a terapia grupal e o suporte familiar — não porque a psicanálise individual seja insuficiente, mas porque a dependência se instala em redes relacionais e precisa ser abordada nessas mesmas redes. Marlatt e Donovan (2005) sistematizaram os fatores que favorecem a recuperação sustentada: cessação ou redução do uso, tratamento dos transtornos subjacentes — especialmente o trauma —, reconstrução de vínculos afetivos saudáveis e inserção em contextos que ofereçam prazer e significado alternativos. A droga não pode ser simplesmente retirada: é preciso que algo ocupe o espaço que ela preenchia — e esse algo só pode ser construído na relação com o outro, no vínculo, na palavra. 11. Considerações Finais A questão com que abrimos este estudo — por que alguns desenvolvem dependência e a maioria não? — não comporta uma resposta única. Mas comporta respostas, no plural: tantas quantas são as pessoas que, em algum momento de sua história, encontraram na droga uma resposta para uma pergunta que não conseguiam formular de outra forma. A psicanálise não oferece fórmulas, não prescreve comportamentos e não julga. Oferece escuta — e é precisamente isso o que o dependente frequentemente nunca teve: alguém disposto a escutar, não o viciado como categoria, mas o sujeito que há por trás da identidade construída em torno da substância. Compreender a dependência química como expressão de um sofrimento próprio de cada caso, como resposta a uma dor específica, como efeito de uma cultura que promete o gozo irrestrito e entrega a exclusão — tudo isso não é academismo: é condição para que o trabalho clínico possa, de fato, alcançar o sujeito onde ele está. E é a partir daí, e somente a partir daí, que qualquer possibilidade real de transformação pode começar.
A criança que não tem espaço para brincar, para fantasiar, para simplesmente ser; o jovem que não encontra formas de pertencimento ao mundo além do consumo ou da droga; o adulto que aprendeu que seus estados afetivos devem ser gerenciados quimicamente e não elaborados simbolicamente — todos eles ensinam algo sobre a época em que vivemos, e sobre o tipo de cuidado que ela exige. Um cuidado que não seja apenas farmacológico, não seja apenas moral, mas que seja, acima de tudo, profundamente humano.
Leitura Recomendada MARCOS, William. Dependência Química: O Que a Psicanálise Revela Sobre o Vício: Adicção, Desejo, Cultura e Clínica — Uma Abordagem Psicanalítica da Dependência. Belo Horizonte: Amazon, 2026. Disponível em: https://www.amazon.com.br/dp/B0GWS2FL41
. Acesso em: 10 abr. 2026.
Sobre o Autor William Marcos é psicanalista, filósofo e escritor. Autor de mais de quarenta obras publicadas em português, inglês, espanhol e francês, dedicou sua investigação à compreensão das estruturas do inconsciente, da linguagem e do pensamento humano — no ponto de encontro entre a psicanálise clínica e a tradição filosófica ocidental.
Com formação teórica e clínica construída ao longo de décadas, é reconhecido pelo diálogo rigoroso que estabelece entre Freud, Lacan, Winnicott e as grandes correntes da filosofia. Sua obra distingue-se por uma combinação rara: precisão conceitual, clareza didática e alcance literário — tornando acessíveis estruturas de pensamento que frequentemente resistem à compreensão mesmo de leitores avançados.
É fundador do Instituto Internacional de Psicanálise e mantém presença ativa na formação de psicanalistas, psicólogos e estudiosos da filosofia em múltiplos países. Seus livros podem são disponibilizados em sua página de autor na Amazon: https://amzn.to/4naLZgL E-mail: wmok34@hotmail.com Site pessoal: https://williammarcospsicanalista.com/ Site institucional: https://institutointernacionaldepsicanalise.com/
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