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24 de outubro de 2025 · Filosofia · Por William Marcos

Hume e Espinosa: Ontologia, Empirismo e Determinismo na Filosofia Moderna

William Marcos Filósofo e Psicanalista

Estudar Kant — ou mesmo aprofundar-se como cientista ou artista, seja em vertentes clássicas ou progressistas — conduz inevitavelmente à reflexão sobre o ser e à ontologia de Espinosa, cuja visão determinista marcou profundamente a filosofia moderna. Contudo, é possível reconhecer, ao mesmo tempo, o valor da filosofia kantiana, cuja influência sobre Hume e Espinosa evidencia o diálogo entre empirismo e determinismo. Essa conciliação de ideias reflete a dificuldade de refutar a fenomenologia kantiana, que abriu caminho para a evolução da razão humana e para uma nova compreensão das bases do conhecimento e da liberdade.

A mudança foi motivada pela queda de antigos conjuntos de crenças, que deram lugar ao controle da natureza por meio da industrialização, e pela liberação do homem comum da escravidão do trabalho manual, do domínio dos senhores de oficina e, finalmente, da teologia como ensino mínimo.

Influenciado por Kant, a Ontologia de David Hume oferece uma solução para a estruturação dessa libertação, que permitiu ao homem adentrar e explorar o mundo das ideias. Neste contexto, apresento abaixo duas questões, sendo uma delas de Hume, que explica a natureza dos sentidos e como eles possibilitam a intuição como uma forma empírica, além de contribuir para o estabelecimento do conhecimento, seja ele dedutivo ou baseado em certezas comprováveis.

A seguir, apresento uma breve crítica à filosofia de Espinosa, no que diz respeito ao seu caráter dogmático, que, ao tentar explicar a totalidade da realidade através de uma substância única e imutável, acaba por limitar a liberdade do pensamento humano.

Essa abordagem, segundo minha análise, conduz o homem a extremos: de um lado, ao ateísmo absoluto, e, de outro, à servidão intelectual dos simples aos poderosos, os quais, por séculos, dominaram as esferas do saber. A filosofia espinosana, ao negar a liberdade individual em favor de uma ordem natural predeterminada, coloca o ser humano em uma posição de subordinação que impossibilita a verdadeira autonomia da razão.

Questão primeira:

De acordo com Hume, a crença na existência dos corpos ou objetos externos não pode ser produzida diretamente pelos sentidos. Para ele, os sentidos fornecem ao ser humano percepções simples e singulares, como, por exemplo, a capacidade de perceber que um objeto está distante de nossa posição. No entanto, essa percepção inicial não nos permite afirmar a distância exata ou o tempo necessário para alcançar tal objeto.

Ir além da simples percepção do objeto exige uma análise mais profunda, como a consideração de semelhança e causalidade. Nesse processo, a mente começa a processar os dados iniciais obtidos pelos sentidos, utilizando a razão e a experiência para formar conclusões mais elaboradas.

É justamente esse exercício constante da razão que permite ao ser humano construir a noção de existência contínua dos corpos ou objetos externos. Embora os sentidos nos permitam experienciar sons, sabores, dimensões e texturas, será a interação da mente com a experiência humana que possibilitará compreender ou até imaginar a existência de tais objetos, mesmo quando nossos sentidos não os alcançam diretamente.

Questão segunda:

A metafísica de Espinosa é frequentemente considerada dogmática, pois parte de um conjunto de pensamentos que se opõem ao idealismo. O dogmatismo, nesse contexto, refere-se à visão rígida e inflexível da realidade, onde se cultua a ideia do ser na natureza. Em outras palavras, o pensamento espinosano coloca Deus como imanente à natureza, isto é, Deus é parte integrante e indissociável dela.

Espinosa define Deus como a substância primeira e única, que possui infinitos atributos, e a essência divina se expressa de maneira eterna e infinita. Com isso, Espinosa sugere que Deus e a natureza são a mesma coisa, o que implica que todas as formas da natureza são manifestações diretas de Deus.

Este ponto de vista estabelece uma visão determinista e totalitária da realidade, onde a liberdade humana e o pensamento crítico ficam limitados. O dogmatismo espinosano não oferece margem para um questionamento dinâmico sobre a natureza divina ou a essência do ser, o que, para muitos, restringe a reflexão filosófica.

A filosofia apresentada por Espinosa em sua obra Ética não acolhe nem se permite qualquer tipo de crítica, pois está profundamente enraizada em uma visão determinista da realidade. Espinosa defende uma substância única e imutável, na qual a natureza e a existência são inseparáveis. Nesse modelo, a liberdade humana é severamente limitada, pois a natureza e suas leis determinam todo o curso da existência, deixando pouca margem para questionamentos ou adaptações.

Em contraste, a ontologia de Hume oferece uma abordagem mais flexível e dinâmica. Ao invés de impor um determinismo rígido, Hume permite uma visão mais libertadora da experiência humana, onde a razão e a experiência contínua oferecem a base para a construção do conhecimento e a compreensão do mundo. Dessa forma, Hume possibilita a reflexão sobre tratados sociais e imperativos morais, que são mais plausíveis e testáveis, especialmente quando se considera a ideia de que somos seres dotados de livre-arbítrio, capazes de fazer escolhas racionais dentro das circunstâncias em que nos encontramos.

Assim, fica o desafio para os filósofos e pesquisadores da filosofia de Espinosa: como defender a origem da substância primeira, que Espinosa identifica com Deus-Natureza, em um contexto contemporâneo que questiona as implicações de um determinismo absoluto? Enquanto a filosofia de Hume não busca explicar a origem dessa substância, ela se concentra em como lidamos com a experiência de Deus, concebido como uma ideia antropomórfica, cujas qualidades ilimitadas são vistas como produto da experiência mental.

Hume nos leva a refletir sobre a crença em Deus a partir da certeza de nossa própria existência dentro da natureza, baseando-nos no acúmulo de experiências fornecidas pelos sentidos, que são os verdadeiros mestres na construção de nossa razão lógica e subjetiva. O desafio agora é aprofundar o diálogo entre essas duas abordagens, explorando não apenas as origens das substâncias filosóficas, mas também as maneiras como as experiências sensoriais e racionais influenciam nossas concepções metafísicas e espirituais.

Este artigo faz parte de uma análise mais ampla sobre os filósofos David Hume e Baruch Espinosa, que será aprofundada na série A BÍBLIA DA FILOSOFIA, onde as questões ontológicas e epistemológicas de cada pensador são exploradas com mais detalhes. A série, composta por 6 volumes, oferece, além dos primórdios da teologia e filosofia, uma visão abrangente e interconectada da filosofia clássica e moderna, abordando desde as fundamentações do pensamento lógico até as concepções mais contemporâneas de liberdade, determinismo espinosano e ontologia.

Para saber mais sobre as ideias discutidas aqui, recomendo explorar os volumes de A BÍBLIA DA FILOSOFIA, onde cada conceito é analisado em profundidade, contribuindo para um entendimento mais holístico das ideias que moldaram o pensamento ocidental.

Leitura Recomendada

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Sobre o autor

William Marcos é escritor brasileiro, psicanalista, filósofo e historiador especializado em filosofia. Foi professor da ABRAFP – Associação Brasileira de Filosofia e Psicanálise entre 2014 e 2016 e fundou, em 2017, o Instituto Internacional de Psicanálise, junto a renomados psicanalistas brasileiros. Atualmente, dedica-se à vida intelectual, com a produção de livros, e ao atendimento especializado de autistas e seus familiares. Psicanalista atuante desde 2012, é reconhecido por sua trajetória voltada ao pensamento crítico, à ética e à compreensão profunda da psique humana. Combinando sensibilidade clínica a um olhar filosófico singular sobre os dilemas da existência, William Marcos desenvolve seus estudos clínicos e filosóficos de forma inovadora. Autor de ensaios, traduções filosóficas, compêndios de referências em filosofia e obras clínicas, construiu um estilo próprio, que une rigor conceitual e clareza narrativa, tornando complexos conceitos psicanalíticos acessíveis e aplicáveis à vida contemporânea. Atualmente residindo em Belo Horizonte, Minas Gerais, William encontra inspiração em caminhadas pela orla da Lagoa da Pampulha, pratica esportes no Iate Tênis Clube e valoriza o tempo dedicado à vida cultural da capital mineira.

Seus livros estão disponíveis em sua página de autor na Amazon: https://amzn.to/4naLZgL

E-mail: wmok34@hotmail.com Site pessoal: https://williammarcospsicanalista.com/ Site institucional: https://institutointernacionaldepsicanalise.com/

Referências Bibliográficas

ESPINOSA, Baruch. Ética (Ethica Ordine Geometrico Demonstrata). Trad. Joaquim Carvalho. São Paulo: Nova Alexandria, 2007.

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Trad. João Alberto F. L. Gomes. São Paulo: Loyola, 1997.

HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano (An Enquiry Concerning Human Understanding). Trad. Mário Ferreira dos Santos. São Paulo: Loyola, 2005.

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